sábado, 30 de março de 2013

Sobre o que podemos falar nessa noite de sábado?

Poderia falar das coisas que perdi, das coisas que achei. Poderia falar do Bukowski e me comparar a ele. A gente tem que deixar uma marca no mundo, querido. Aquele iogurte derramado na parede vai deixar a marca durante um bom tempo, e então, quando formos embora desta casa, o próximo inquilino verá as manchas. Talvez ignore e passe uma mão de tinta e esqueça para sempre que havia uma mancha de iogurte na parede de seu quarto.

Talvez o próximo inquilino encontre as manchas de esperma na parede e ache que foi alguma comida ou qualquer coisa. E eu, quando chegar na casa nova, procurarei vestígios de um inquilino antigo. acharei uma foto esquecida por ele. Uma foto de uma mulher. Uma foto antiga, digamos que dos anos 70. Uma mulher de vestido, sorrindo. Atrás da fotografia: “Com o amor que eu nunca lhe dei”. E aí eu guardaria a fotografia como um tesouro. Me apaixonaria pela mulher. E então me mudaria novamente de casa e esqueceria a foto.

A verdade é que nunca me mudei. Dezesseis anos nos mesmos corredores, com as mesmas fotos na parede e as mesmas caras pálidas me acordando às seis da manhã para ir à escola. A escola é um lugar hostil. Na verdade, estou de férias. No meio do ano meu semestre começa na faculdade. Descobri que vou ter seis matérias. Na escola eu tinha dezessete. É uma diferença grande. Lembro das aulas tediosas de química, com as cadeias enormes de carbonos. Lembro das aulas felizes de minha professora loira a qual eu imagino nos meus desejos íntimos. Lembro-me do professor levava à loucura meu amigo gay. Havia a professora que tinha sonífero na voz. Todas repetitivas as aulas. O professor entrava na sala, ligava o projetor e passava os slides, falando uma coisa qualquer de sua graduação. Por vezes a aula parava para se falar de maturidade, educação ou qualquer lição de moral.

Dormia muito. No meio da aula de biologia, me perdia entre bactérias e protozoários e começava a sonhar com um pônei perneta. Certa vez perguntei à professora de biologia o qual atitude era mais desrespeitosa: dormir na aula ou fingir que está interessado mesmo só se importando com a nota. Ela falou que dormir era mais justo consigo mesmo, pois você estava admitindo que não queria assistir à aula, enquanto que na outra opção o sujeito se engana. Depois da resposta, voltei ao meu lugar e dormi. Foi meu último dia de aula. Naquele dia, à noite, recebi a notícia da faculdade e não fui mais para a escola.

“A vida é uma cama de motel
já não sei se fodo ou se sou fodido.” - João K. Guimarães.